segunda-feira, 5 de abril de 2010

''O debate centrado na ética é muito bom para a gente''


Em sua primeira entrevista depois de sair do governo, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, afirmou ao Estado que o PT não se assusta com a discussão da questão ética - conforme proposto pelo José Serra, pré-candidato do PSDB, ao fazer um balanço de sua gestão em São Paulo. "Esse debate é muito bom para a gente", afirmou, dando como exemplo "tudo o que foi feito" nas operações da Controladoria-Geral da União com a Polícia Federal. "Se teve um governo que levantou o tapete, foi o governo Lula. Antes não apareciam denúncias, porque ninguém apurava."

Sem citar nomes, ela criticou a atuação da Procuradoria-Geral da República durante o governo Fernando Henrique. "Acabamos com a figura do engavetador-geral. Onde está o engavetador? A União não engaveta mais nada", disse ela. "Nos sentimos muito à vontade em fazer essa discussão."

Dilma reconheceu as falhas no sistema de saúde e propôs aumentar os investimentos em educação. Disse que os rivais terão de mostrar propostas para o País não ficar estagnado: "O Serra que me desculpe, mas ele não foi só ministro da Saúde. Foi ministro do Planejamento. Planejou o quê, hein?"

A petista concedeu a entrevista de improviso, ao ar livre, ao final de uma caminhada pelo Parque da Península dos Ministros, no Lago Sul, bairro onde mora. Ela foi para lá, dirigindo seu carro, um Fiat Tipo, ano 1995, com placa de Porto Alegre. Só tinha a companhia de Nego, seu labrador preto. Desde que deixou a Casa Civil, na quarta-feira, Dilma caminhou todos os dias. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O presidente Lula disse que espera que seu sucessor faça mais pela educação. Qual sua meta para o setor?

Ele tem toda razão. Ele construiu um alicerce. Vamos ter que aumentar ainda mais os investimentos.

Hoje, o investimento não chega a 5% do PIB. Educadores sonham com 7%. É possível investir 10%?

Não vou dizer porcentual porque não sou doida, mas dá para aumentar progressivamente os investimentos. Não podemos esquecer que teremos recursos da exploração do pré-sal.

Mas a proposta de investir o dinheiro do Fundo Social do pré-sal em educação encontrou resistência no Congresso. Os partidos querem repassar os recursos para outros setores.

Aí não está certo, distorce o que pode ser o nosso passaporte para o futuro. Apostar na educação não é só uma questão de inclusão e dar suporte à inclusão social. Temos que investir em educação para sermos de fato um país de liderança mundial.

No debate sobre saúde, a senhora não teme enfrentar José Serra, que é um ex-ministro da área?

Não tivemos na saúde, nos últimos 30 anos, um momento tão propício, como agora. Demos um grande salto quando estruturamos o SUS (Sistema Único de Saúde), ninguém pode negar. O SUS de um lado garantia a atenção básica e a partir de um certo momento, as unidades básicas de saúde, com saúde da família, que atendem a gestantes, crianças e aqueles que têm doenças como diabetes, hipertensão. E tinham os hospitais. Neste processo, entre as unidades e os hospitais não tinha nada, não tinha a média complexidade. Uma pessoa ficava em filas e filas. Isso não foi resolvido por ninguém. Acho que o grande passo foi dado com as UPAs, as Unidades de Pronto Atendimento, que garantem atenção 24 horas por dia e impedem que a fila se dê no hospital, transfere o atendimento de urgência e emergência para essas unidades. As UPAs, que estão programadas para uma população de 100 a 200 mil, chegando a 300 mil, têm níveis de cobertura diferenciada. Em vez de ir direto para o hospital, uma pessoa que teve um ataque cardíaco segue para uma UPA. A unidade faz a prevenção, dispensando a fila no hospital. Se o ferimento ou o problema não for grave pode ser tratado ali.

Mas a realidade ainda é outra...

Acho que vamos mudar esta realidade. O pessoal tem toda a razão quando se queixa. Não tinha fila no INSS? Nós não falamos que íamos acabar? Acabamos. Vamos mudar a situação da saúde.

José Serra saiu do governo de São Paulo com um discurso focado na questão ética. Pode prevalecer esse debate no processo eleitoral?

Esse debate é muito bom para a gente. Pode olhar tudo o que foi feito. Nunca se esqueça que foi a CGU quem descobriu a máfia dos sanguessugas. Tudo foi feito pela CGU, combinado com a Polícia Federal. Se teve um governo que levantou o tapete, foi o governo Lula. Antes não apareciam denúncias, porque ficavam debaixo do tapete, ninguém apurava. Estava vendo, outro dia, um levantamento da CGU que mostra que as principais descobertas e investigações neste governo foram de casos que ocorreram em governos anteriores. A apuração das denúncias levantadas pela Operação Castelo de Areia é um caso. E acabamos com a figura do engavetador-geral. Onde está o engavetador? A União não engaveta mais nada. Nos sentimos muito à vontade em fazer essa discussão. Agora, se me perguntarem se isso rende frutos, acho que não rende. Eles pensaram que ia render em 2006. Acho que eles não podem ter só esse discurso. Vão ter que mostrar qual é a proposta para o Brasil não viver estagnado. O Serra que me desculpe, mas ele não foi só ministro da Saúde. Foi ministro do Planejamento. Planejou o quê, hein? Ali, se gestou sabe o quê? O apagão. O apagão que eu falo é o racionamento. Porque o pessoal usa um pelo outro. Racionamento é ficar oito meses sem energia.

A senhora trabalha para estar no mesmo palanque de Ciro Gomes ainda no primeiro turno?

Tenho uma relação muito forte com Ciro. Por conta do fato de termos sido ministros no primeiro mandato do presidente Lula. Foi uma época muito difícil, havia muita tensão, muitas acusações. O Ciro foi um companheiro inestimável. Ele pensa semelhante a todo o projeto do governo. Agora, o que ele vai fazer só ele pode dizer. Não tem como fazermos suposições sobre qual é o caminho político do Ciro.

O País ficou 21 anos sob ditadura e, há 25 anos, não tem direito oficialmente à memória dos tempos do regime militar. A senhora já disse que não aceita o revanchismo. Há condições para abrir os arquivos militares?

Não tem revanchismo em relação à memória. Fizemos todas as tratativas na Casa Civil, quando mandamos ofícios a todos os órgãos arquivistas existentes na República. Pedimos que entregassem os arquivos. Foi dito que tinham sido queimados. Então, que se apresentassem as provas. A Aeronáutica entregou a parte do arquivo. As demais Forças disseram que não existem arquivos. O que pudemos fazer, nós fizemos.

Se a senhora for presidente, vai abrir o arquivo do CIEx, órgão de inteligência do Exército?

O Brasil está bastante aberto. Depende do que vai ocorrer daqui para frente. O aperfeiçoamento da democracia não é uma coisa que se faz de uma vez por todas. Faz a cada dia. É um processo de consulta a pessoas.

Há clima favorável ao fechamento de um ciclo, à abertura do arquivo?

Acho que esse ciclo está consolidado, bastante consolidado.

Qual a proposta da senhora para as Forças Armadas?

O Plano de Defesa que fizemos foi uma das melhores coisas do governo Lula. Um país deste tamanho tem de aparelhar e valorizar as suas Forças Armadas, tem de ter uma estratégia de defesa. É preciso estar presente na nossa imensa costa, até porque temos a questão do pré-sal, e daí a importância dos submarinos.

PRESTE ATENÇÃO

Mensalão

A ex-ministra afirma que o debate ético não assusta o PT, mas, no primeiro mandato do presidente Lula, o partido foi abalado por um dos maiores escândalos da história republicana, o caso do mensalão. Quarenta pessoas foram denunciados ao STF, entre elas os principais dirigentes petistas à época, como o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente da legenda José Genoino.

Sanguessugas

A Operação Sanguessuga, lançada pela PF em 2006, revelou que as fraudes nas licitações na saúde começaram em 2001, na gestão do então ministro José Serra. O PT e o atual governo, no entanto, ficaram constrangidos quando a própria CGU revelou que em 2004 havia alertado o então ministro Humberto Costa, sobre a existência da máfia. Costa só se pronunciou sobre o caso quando a PF estourou com estardalhaço o esquema. A CPI instalada para investigar as denúncias pediu a cassação de 64 parlamentares aliados do governo Lula e oito da oposição.

Saúde

Quanto à política de saúde, o próprio presidente Lula reconhece em conversas internas que se trata de um ponto fraco de seu governo. Desde o primeiro mandato, ele se queixa dos ministros que ocuparam a pasta durante seus dois mandatos: Humberto Costa, Saraiva Felipe e José Gomes Temporão. Ameaçado de perder o cargo no ano passado, Temporão raramente é convidado pelo presidente para eventos pelo País. Na avaliação de Lula, o ministro - apadrinhado pelo governador do Rio. Sérgio Cabral (PMDB) - não conseguiu construir uma marca forte no setor.

Educação

Nos palanques, Lula gosta de dizer que foi o presidente que mais construiu escolas técnicas e universidades. A educação no Brasil, porém, pouco mudou. Em 2001, o presidente FHC vetou o trecho do Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso, que previa investimento de 7% do PIB no setor. Lula nada fez para derrubar o veto. Estima-se que os gastos das três esferas de governo na área sejam de cerca de 5%. O Unicef recomenda investimento de 8%. Houve, nas estatísticas oficiais, ligeiro aumento nos gastos em educação, de 3,9% no final do governo FHC para 4,6% em 2008.

Terremoto na Baixa Califórnia tem uma morte confirmada

Em Mexicali, homem morreu depois que sua casa desmoronou.
Tremor de 7,2 graus foi sentido no México e nos EUA.


Pelo menos uma pessoa morreu por causa do terremoto que atingiu a Baixa Califórnia neste domingo (4).

Segundo informações de uma equipe de emergência, a morte aconteceu após o desmoronamento de uma casa.

"Meus companheiros em Mexicali confirmaram o falecimento. Sua casa ruiu e o homem ficou preso", disse à AFP Martín Rendón, integrante da Defesa Civil da Baixa Califórnia, desde Tijuana, outra cidade atingida.

O diretor da Defesa Civil da Baixa Califórnia, Alfredo Escobedo, informou que a casa se localiza no Vale de Mexicali, a 18 quilômetros de onde foi o epicentro do tremor.

Escobedo disse que a vítima não foi identificada. Os problemas com as linhas telefônicas e o corte na provisão de energia elétrica dificultaram a difusão de informação sobre os danos, sobretudo em Mexicali.

Por enquanto, trata-se da única morte confirmada do abalo de 7,2 graus que atingiu o noroeste mexicano e o sudoeste dos EUA na tarde deste domingo.

Segundo o Serviço Sismológico Nacional (SSN) mexicano, o terremoto ocorreu às 15h40 locais (19h40 de Brasília) a 18 km ao sudeste da capital da Baixa Califórnia, Mexicali, município fronteiriço com os Estados Unidos e que tem 900 mil habitantes.

Réplicas

O Serviço Geológico dos Estados Unidos emitiu um comunicado em que informa que houve réplicas de 3,8 e 3,6 graus de magnitude e, além disso, outro terremoto, de 5,1 graus no sul da Califórnia americana.

Essa última réplica aconteceu às 16h15 local (20h15, Brasília) a 16,9 quilômetros de profundidade e a um quilômetro de Imperial (Califórnia).

O Centro de Informação sobre Terremotos mexicano informou que houve dez réplicas após o tremor, a mais forte de 5,4 graus Richter.

Poste caído em rua da cidade de Mexicali, capital do estado da Baixa Califórnia, no México. Terremoto de 7,2 gaus atingiu região neste domingo (Foto: Jorge Rivera/AP)

Ao "Los Angeles Times", sismólogos do Instituto de Tecnologia da Califórnia disseram que 20 milhões de pessoas nos dois países sentiram o abalo.

Em Mexicali, "pelo menos um edifício colapsou e outros prédios públicos e privados têm alguns danos", explicou Alfredo Escobedo.

O funcionário alertou que o balanço seguramente deve ser maior porque, por ser domingo, é possível que muitos imóveis comerciais e escolas não tenham sido verificados.

Foto enviada à AP pelo Twitter mostra danos estruturais à faculdade de administração Escomex, em Mexicali, neste domingo (Foto: Jorge Rivera/AP)

Sem energia

O site do jornal "La Crónica", de Mexicali, fala de danos causados a alguns edifícios. Informa também que postos de gasolina e lojas fecharam por precaução após o terremoto. O diário "El Excelsior", da capital mexicana, informa que Mexicali está sem energia elétrica e sem serviço de telefoniA imprensa mexicana cita cenas de pânico e desmaios em Tijuana, na fronteira do México com os EUA, mas sem feridos ou danos graves a construções.

Ainda segundo a Reuters, edifícios em Tijuana, a 200 km do epicentro do terremoto, foram seriamente danificados.

O jornal americano "Los Angeles Times" noticiou que o tremor sacudiu edifícios nas cidades de Los Angeles e San Diego, no sul da Califórnia, assim como outras localidades do estado vizinho do Arizona.a móvel.

"Estou tremendo como uma folha... a água da piscina espalhou para todo lado", disse à Reuters Jean Nelson, morador da cidade de Índio, na Califórnia (EUA), localizada a 190 km do epicentro.

Daniel Schulz, cientista brasileiro que mora em San Diego, relatou ao G1 por telefone que um forte tremor foi sentido por lá. "Durou uns 30 segundos. Estávamos em um almoço de Páscoa da família quando formos surpreendidos", afirmou. Ainda segundo ele, não havia informações sobre danos sérios a edifícios na cidade. "Boa parte dos prédios aqui estão preparados para terremotos", disse.
"Aqui balançou de leve", disse a moradora de Los Angeles Nathalie Ruiz à Reuters. "Não foi um tremor forte, mas claro que assustou", completou.

Uma moradora de Los Angeles ouvida pelo G1 também confirmou que sentiu o tremor e disse que o mesmo foi sentido por sua família, em Phoenix, no estado do Arizona.

Segundo o canal de TV KABC, de Los Angeles, vários arranha-céus da cidade foram sacudidos com força e o corpo de bombeiros local respondia neste momento a vários chamados para tirar pessoas presas em elevadores.

No entanto, não houve informações sobre feridos, danos importantes ou cortes de energia.

domingo, 4 de abril de 2010

Campanha incentiva concessão de licença-materniadade de seis meses em empresas privadas

O Senado lança, na próxima terça-feira (6), uma campanha para incentivar as empresas privadas a aderirem à nova licença maternidade de seis meses. Com o slogan Licença Maternidade de Seis Meses: Agora é a vez da empresa, ela será divulgada por meio de um vídeo nas emissoras públicas de televisão, folders, uma carta dirigida ao empresariado e cartazes com informações sobre como as empresas podem começar a conceder o benefício e os incentivos fiscais que elas têm direito caso adotem a nova licença.

A lei que deu origem ao programa Empresa Cidadã é de 2008 e já é aplicada no setor público. Segundo especialistas, um período maior de amamentação dos bebês reduz em 17 vezes as chances de as crianças terem pneumonia.

Fonte: Agência Brasil

Palanques múltiplos são problema para Dilma Rousseff


Depois de deixar a Casa Civil para poder cuidar oficialmente de sua campanha presidencial, a petista Dilma Rousseff sabe que uma de suas prioridades será pacificar os aliados em pelo menos cinco Estados estratégicos eleitoralmente. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Maranhão terão aliados governistas em choque direto, o que poderá comprometer o desempenho da candidata.

Juntos, esses cinco Estados representam cerca de 35,3% do eleitorado nacional, ou um contingente de 46,8 milhões de votos. Se os aliados de Dilma estivessem unidos, teriam mais capacidade para transferir seu prestígio regional para a candidata petista. Divididos, criam constrangimentos para Dilma e para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que precisarão redobrar a cautela para evitar crise entre os aliados por conta de uma eventual preferência dada a algum desses candidatos em detrimento de outros.

Em Minas, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com 14,2 milhões de eleitores, o PT não conseguiu amarrar um acordo com o PMDB local. O ex-ministro das Comunicações Hélio Costa lidera as pesquisas, mas não teve sucesso até agora em convencer os petistas a apoiá-lo para o governo. A maior resistência vem do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, pré-candidato e um dos coordenadores da campanha de Dilma.

No Rio, que concentra o terceiro maior número de eleitores - 11 3 milhões -, um acordo desse tipo é impossível. Os dois candidatos da base e líderes nas pesquisas são o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e o ex-governador Anthony Garotinho (PR), hoje adversários ferrenhos. Ambos pleiteiam a participação de Dilma e Lula em suas campanhas.

Situação semelhante ocorre na Bahia, onde o governador Jaques Wagner (PT) terá o ex-ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima (PMDB) como adversário. Como Cabral e Garotinho, Wagner e Geddel eram aliados e romperam relações publicamente. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Agência Estado

Saneamento do Brasil é um dos piores do mundo


A vida pacata de Zenilda Barbosa Firmino, moradora há 25 anos do Núcleo Rural Taquara, a cerca de 50km do Plano Piloto, nada tem a ver com o horror terrorista do Afeganistão, a matança provocada pela guerra civil no Timor Leste ou a fome que dizima milhares no Sudão. Em um ponto, porém, a realidade da mulher de 54 anos se aproxima muito do ambiente vivenciado nesses países marcados por miséria extrema. É que no Brasil apenas 23,1% da população rural têm acesso a esgotamento sanitário — índice pior que o da Nigéria, por exemplo, onde 25% dos moradores do campo são atendidos com serviços adequados de saneamento. Os dados nacionais constam do mais recente relatório de monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que foram comparados com as estatísticas oficiais de outras nações pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Diante de tal quadro, é consenso entre especialistas que uma das oito metas do Projeto ODM — reduzir pela metade, até 2015, a proporção de pessoas sem acesso permanente a água potável e a esgotamento sanitário — dificilmente será atingida pelo Brasil caso o atual ritmo de melhora seja mantido. Na prática, isso significa chegar a 44,85% de excluídos do serviço de esgoto na área rural em cinco anos. Só que, entre 1992 e 2008, tal índice caiu pouco: de 89,7% para os atuais 76,9%. Quase metade de todos os moradores do campo no país — cerca 30 milhões de pessoas, ou 16% da população brasileira — utiliza fossas rudimentares, 5,6% depositam seus dejetos em valas e 3,1% jogam direto em rios, lagos ou no mar. Para 21%, o drama é ainda pior: eles simplesmente não contam com nenhuma forma de se livrar do esgoto (veja quadro).

“Historicamente a área rural é largada à própria sorte, inclusive no saneamento. Os índices no setor simplesmente não condizem com a oitava economia do mundo. Países como Chile, Argentina e Uruguai têm realidades melhores que a nossa”, protesta Cassilda Teixeira de Carvalho, presidenta da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental. Ela defende uma mudança gerencial, de cultura e de mentalidade para driblar o problema. “É isso que falta nas políticas públicas, mais do que uma carência de recursos financeiros”, alfineta.

Obstáculos
Para as instân
cias do governo federal ligadas ao setor — que não negam a deficiência —, são vários os obstáculos a serem vencidos a fim de garantir o esgotamento sanitário adequado fora das cidades. Entre os principais, estão distância, pulverização geográfica das residências e dinheiro. “O custo da infraestrutura para atender uma comunidade pequena acaba se tornando inviável financeiramente. Temos que trabalhar com alternativas tecnologicamente adequadas”, afirma Sérgio Gonçalves, do Departamento de Articulação Institucional da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades.

Coordenador de Engenharia Sanitária da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Pedro Villar reafirma o problema de financiamento, embora destaque que o orçamento a ser gasto na área vem, aos poucos, aumentando. “Não digo escassez, mas há limitação de recursos”, diz o engenheiro da entidade, cuja tarefa é atender, na área do saneamento, municípios com menos de 50 mil habitantes e vilas rurais de até 2,5 mil moradores, além de quilombolas, indígenas, ribeirinhos e assentados.

Walder Suriani, superintendente executivo da Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais (Aesbe), não duvida da dificuldade financeira de implementar equipamentos adequados de esgoto na área rural. “Nossos investimentos, falando como companhia, precisam ter retorno, ter a tarifa. Exatamente por esse motivo é que a União e os governos estaduais e municipais devem entrar pesado no setor se quiserem garantir condições mais saudáveis para a área rural e o meio ambiente”, diz Suriani.

Sonho
Tal intervenção é sonho antigo de Zenilda. Em sua casa no Núcleo Rural Taquara, com mais três residências dentro do mesmo lote, ela mostra sua fossa no quintal, praticamente colada à janela de um cômodo. “Seria bom se fosse mais longe um pouco da gente, talvez lá na rua. Mas desde que eu vim para cá é assim, ninguém do governo nunca veio perguntar sobre isso”, afirma.

Há alguns meses, a mulher, que vive com o marido e um filho, de 21 anos, na zona rural de Brazlândia tenta juntar dinheiro para reformar a fossa que recebe os dejetos do banheiro. “Aos poucos as bordas estão caindo”, diz, apontando para o cimento no chão. Um outro cano, por onde é escoada a água das torneiras da casa, esse a céu aberto, também preocupa Zenilda. Em tempos de dengue e com muitas crianças morando nas três residências dentro do lote, o acúmulo de água no quintal pode ser um chamariz para o mosquito Aedes aegypti. Com o solo molhado por conta das chuvas dos últimos dias, o processo de infiltração na terra torna-se ainda mais lento e demorado.

Compromisso
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) foram definidos durante a Cúpula do Milênio, em Nova York, em 2000, quando líderes de 191 nações oficializaram um pacto para tornar o mundo mais solidário e mais justo até 2015. Para mensurar o sucesso desse grande projeto humanitário, foram definidas oito metas, que ficaram conhecidas como ODMs. Elas dizem respeito ao fim da miséria e da fome; educação básica de qualidade para todos; igualdade entre sexos e valorização da mulher; redução da mortalidade infantil; melhoria da saúde das gestantes; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; combate à Aids, malária e outras doenças; além de formalizar parcerias pelo desenvolvimento.

Programa Minha Casa, Minha Vida faz o preço dos imóveis disparar

Quem é pobre vê o sonho ficar distante e o governo não tem saída para o pesadelo.

Criado para garantir o acesso à casa própria pela população de baixa renda, por meio de imóveis baratos e condições facilitadas de financiamento, o programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, aqueceu o mercado da construção civil e imobiliário no Distrito Federal e Entorno. A proliferação de canteiros de obras e os muitos fechamentos de contratos de empréstimo sinalizam que o plano está caminhando. O movimento natural de aumento da demanda e de urbanização de zonas desocupadas causou um efeito colateral negativo no DF e nas cidades goianas mais próximas: o preço de imóveis e terrenos disparou no período de um ano. O fenômeno é alvo de queixas da população e motivo de desconforto para o poder público.

A valorização acentuada dos imóveis pode ser verificada com clareza em Planaltina de Goiás, cidade a 80 quilômetros de distância da capital federal. Lá, casas de dois e três quartos nos setores Leste e Oeste, que há um ano custavam entre R$ 40 mil e R$ 50 mil, hoje estão no mercado por valores que vão de R$ 75 mil a R$ 100 mil, de acordo com os moradores da cidade e de regiões próximas. As imobiliárias confirmaram o movimento de alta dos preços.

Os setores Leste e Oeste ficam próximos à área central do município e são bairros nobres de Planaltina-GO. Mas, mesmo em áreas mais afastadas, os preços estão salgados. A União Alves Imobiliária, uma pequena construtora, ofereceu, por telefone, casas de dois quartos no loteamento Santa Rita, no Setor Norte, por R$ 80 mil. Um funcionário disse que os imóveis são destinados ao Minha Casa, Minha Vida e estarão prontos em um ou dois meses. Ele admitiu que a área é distante do centro, mas disse que fica próxima ao Batalhão da Polícia Militar e a alguns supermercados.

Ponto de partida
Em Santa Maria, no DF, primeira cidade do país a firmar convênio com o governo federal para a implantação do Minha Casa, Minha Vida, o condomínio Total Ville, de apartamentos e casas destinados ao programa, tem apartamentos de dois quartos a R$ 94,4 mil, e casas de três quartos por valores a partir de R$ 150 mil. O empreendimento, da construtora Direcional, ainda está na planta e tem previsão de entrega em 2012. Ele fica às margens da BR-040, e não no interior da cidade. Imobiliárias informaram ao Correio que, há um ano, os imóveis custavam entre R$ 70 mil e R$ 80 mil perto da região central de Santa Maria. Hoje, não saem por menos de R$ 98 mil. A média de preços na região é mais elevada porque o metro quadrado do Distrito Federal é mais caro do que o de Goiás.

Em Valparaíso de Goiás, a 30 quilômetros de Brasília, e em Luziânia, a 66 quilômetros da capital, que também têm projetos do Minha Casa, Minha Vida, os preços de imóveis subiram igualmente. Na primeira cidade, imóveis na faixa de R$ 60 mil há um ano hoje custam R$ 75 mil e até R$ 100 mil. Em Luziânia, os preços saltaram de R$ 50 mil para valores entre R$ 60 mil e R$ 75 mil.

Valores seguem na contramão
O frentista Ilton Corrêa, 43 anos, não pode se candidatar a um financiamento do Minha Casa, Minha Vida porque tem um imóvel e um terreno. Mas foi afetado pela alta do preço dos imóveis no DF e Entorno. Ilton mora em uma casa em seu nome em Planaltina de Goiás e tem um lote em Sobradinho (DF), no valor aproximado R$ 110 mil. Nele, familiares, sem dinheiro para construir, se acomodam em barracos de madeirite. A intenção do frentista era vender o terreno do DF e adquirir duas casas para as filhas em Planaltina-GO, na faixa de R$ 40 mil cada. Com os novos valores do mercado de imóveis no município vizinho, entretanto, o sonho tornou-se impossível.

Um outro morador de Sobradinho, que prefere não se identificar, conseguiu sair do aluguel no DF para uma moradia própria em Planaltina de Goiás, utilizando o programa Minha Casa, Minha Vida. Mas adquirir uma casa na cidade goiana saiu mais caro do que ele imaginava.

Ronaldo (nome fictício), 27 anos, é auxiliar de escritório e tem renda de R$ 1,5 mil, complementada eventualmente por serviços temporários. Ele ficou animado quando um colega de trabalho contou que, em março do ano passado, adquiriu uma casa de três quartos em Planaltina-GO por R$ 50 mil e decidiu que iria morar na cidade. Teve crédito de R$ 60 mil e subsídio de R$ 23 mil aprovados na Caixa Econômica e saiu à cata de uma boa casa há cerca de três meses. Mas só encontrou imóveis com preços entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, após bater na porta de quatro imobiliárias. Acabou ficando com uma casa de particular no Setor Leste, ao custo de R$ 80 mil, com dois quartos em lugar dos três que queria. Ele vai pagar prestações de R$ 462.


Para saber mais
Plataforma de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Minha Casa, Minha Vida foi lançado em 2009 no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O incentivo à construção civil teve dois objetivos: dar fôlego ao setor durante a crise econômica de 2008 e 2009 e servir de vitrine à candidatura à Presidência da ministra Dilma Rousseff (PT). Na primeira etapa, a União destinou R$ 16 bilhões à cadeia produtiva e R$ 1 bilhão para crédito aos consumidores. A segunda etapa contará com R$ 71,7 bilhões para a construção de 2 milhões de casas em quatro anos.

Classe C vai demandar 10 milhões de imóveis


A classe média popular vai dominar o mercado residencial brasileiro nos próximos anos, segundo recente estudo da MB Associados. De acordo com as projeções da MB, a classe C, com renda familiar de três a dez salários mínimos, terá uma demanda habitacional potencial por 10,4 milhões de imóveis até 2016.

A demanda potencial, segundo o trabalho, é medida pelo número de novas famílias que surgem em cada classe, incluindo-se aí pessoas que partem para morar sozinhas, como um filho que sai de casa ou um divorciado. A consultoria excluiu o déficit habitacional - condições precárias e coabitação, que atingem 7 milhões de famílias, 80% das quais nas classes D e E - do cálculo de demanda potencial.

As novas famílias vão buscar imóveis para morar, sejam novos, usados ou alugados. Sérgio Vale, economista da MB Associados, crê que grande parte da demanda potencial se direcione para a compra de imóveis novos, dada a rápida expansão do crédito imobiliário e o aquecimento desse mercado.

A demanda potencial da classe C é, inclusive, maior que a demanda potencial total de todas as classes, que é de 9,5 milhões até 2016. O fenômeno se explica pela migração prevista, para a classe C, de famílias das classes D e E, com a continuidade do processo de crescimento econômico e redução da pobreza.

Como as classes D e E vão diminuir, elas apresentarão uma demanda negativa de 2,4 milhões naquele período - isto é, essa será a redução do número de famílias nas duas classes mais pobres. Já o aumento do número de famílias das classe A e B (acima de dez mínimos) será de 1,6 milhão até 2016. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Agência Estado